O príncipe que chegou de Uber
Era uma vez, uma garotinha órfão chamada Adele. Seus pais morreram em consequência de uma guerra entre gangues. Como muitas, Adele era mais uma das crianças vitimadas pela violência, encaminhadas aos abrigos de órfãos e abandonados. Adele sentia muita falta de seus pais. Anteriormente, vivia uma vida feliz, brincava e estudava como qualquer criança; tinha uma família que, apesar das dificuldades financeiras, a amava e a protegia. Uma guerra foi decidida entre líderes de duas facções inimigas, pondo fim à união das famílias que não tinham nada a ver com o conflito. A menina chegou ao abrigo aos cinco anos de idade. A guerra acabou sem vencedores, como se adiassem a luta para outros verões. Porém, a luta da menina Adele estava apenas começando. Desde a sua chegada àquele lugar, não via motivo algum para sorrir. Passava o seu tedioso tempo a varrer, espanar e estender lençóis. Muitas das crianças que chegaram com ela, por serem mais novas, partiram para lugares distantes em companhias adotivas. Adele pensava: “qualquer lugar seria melhor do que viver nesse abrigo”. Mas era nova demais para viver sozinha e velha demais para ser escolhida por uma nova família. Adele perdera a vontade de sorrir; nada e nem ninguém conseguia lhe arrancar um sorriso.
Adele era uma menina dócil, apesar da amargura que tornara a sua curta existência. Como uma estranha no ninho, obedecia às ordens da mãe social e seguia seu destino. Menina bonita por dentro e por fora. Atrás de um rosto fechado, havia um coração esperançoso. Conquistara a simpatia da mãe social. Esta fazia o possível e o impossível para lhe ver sorrindo. Tentava animá-la com vestidos novos e adereços para seus cabelos crespos. A menina preferia os trapos que trouxera consigo e sua boneca de cabelo ralo, que lhe faltava um olho. Eram as únicas recordações do que deixara para trás. “Venha, senta-se aqui, vamos arrumar esse cabelo. Lhe comprei lacinhos novos”, dizia a dona Lucy. A menina obedecia. Sentada entre as pernas da velha senhora, relaxava com o toque das pesadas mãos que pareciam massagear suas lembranças para que essas nunca se apagassem. De cabelos trançados, voltava para seu canto preferido da casa, a cozinha, onde se ocupava para não ver o tempo passar. Enquanto aguardava uma nova família do coração, Adele sonhava com o dia em que sua vida lhe fosse devolvida. Mas não a tivera de volta. Nunca mais teve notícias da sua vida anterior. Crescera com as lembranças da infância de quando era feliz. Nova identidade lhe foi atribuída ao completar dezoito anos. Adele entra na maioridade sem nenhuma perspectiva. Lhe roubaram a paz, os sonhos e o sorriso. Contudo, havia algo que ninguém foi capaz de lhe tirar: a esperança de um dia voltar a sorrir.
Logo ficou sabendo que seu tempo no abrigo se esgotara. Ela não se desesperou. Com os ensinamentos providos pela dona Lucy, sabia que ainda havia de sorrir. Sua permanência naquele lugar lhe ensinara que resistir era a palavra de ordem.
Dada a hora, chamou um Uber para chegar ao seu novo endereço, uma pensão. Local arranjado pela sua protetora, dona Lucy. Ganharia um lar e um emprego como arrumadeira, ofício ensinado no abrigo.
O motorista do Uber estava surpreso com a corrida que acabara de confirmar e foi logo puxando conversa: “Bom dia, Adele?!” “Sim, boa tarde!” “Eu sou o William, moro nesse endereço. Há cinco anos fui obrigado a sair do abrigo onde cresci e fui morar nesta pensão. Hoje sou o cozinheiro de lá e, nas horas vagas, faço Uber.” Adele sorriu pela primeira vez. Não se sabe se pela coincidência ou pela esperança de dias melhores.
Seguiram o caminho conversando e se conhecendo. Ela lhe perguntou a razão de ter sido criado no abrigo para menores abandonados. “Meus pais foram obrigados a fugir da nossa terra natal devido a uma crise financeira. Aqui não conseguiram emprego e passamos a morar nas ruas, onde encontraram as drogas e as más companhias. Foram presos, e eu, como era menor, fui parar num abrigo, onde cresci. E você? Quer contar a sua história?” Perguntou.
“Não, a partir de hoje estou iniciando um novo livro. Isso é passado.”
“Já tem o personagem principal?” Perguntou.
“Sim, acabei de encontrar.” Respondeu.
Depois de um ano, os dois estavam casados e felizes enquanto dure!
Renilda Viana
Enviado por Renilda Viana em 13/12/2024
Alterado em 14/12/2024