Sou recantista-RENILDA D. VIANA
A leitura e escrita são o bálsamo que cura as dores da alma e alivia as dores do coração.♥️
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Textos
Encontro de escritoras na Dona Manuela
Crônica
Encontro de escritoras na Dona Manuela
Por Renilda Viana

Somos quatro amigas, unidas pela literatura; diria um quarteto literário. Fazemos qualquer coisa para estarmos juntas e falar do assunto. Faça sol ou faça chuva, lá estamos reunidas discutindo algum novo projeto literário. Depois de horas de trocas de mensagens audíveis, quase uma palestra online, decidimos que marcaríamos um novo encontro presencial para tomarmos um café e colocar algumas novas ideias no papel. A região passava por um período de chuvas nos finais da tarde, daquelas típicas de verão, então o quarteto decidiu que, dessa vez, o encontro seria na parte da manhã para evitar transtornos pluviais, o que impediria de voltarmos para casa em segurança.  
Alguns dias antes, ao voltarmos de mais um encontro desse, no qual não decidimos nada, descobrimos, por acaso, um novo estabelecimento na cidade: uma padaria. Não qualquer padaria, mas uma daquelas que, ao passar em frente, você começa a salivar só de imaginar as guloseimas expostas nas vitrines moderníssimas. Padaria Dona Manuela. Bastou um olhar, e a motorista do grupo já estava tentando um retorno para fecharmos a noite com chave de ouro: uma pizza na nova padaria do bairro mais chique da cidade. Infelizmente, não conseguimos; primeiro porque não encontramos vaga para estacionar, contudo, depois de algumas voltas à caça da vaga, perdemos a padaria. “Como assim? Ela estava bem aqui!” Falávamos em coro. Em resumo: uma padaria gigantesca desapareceu depois de algumas voltas no quarteirão. Voltamos para casa sem conhecer o novo espaço. Mas não esquecemos daquela salivação; virou questão de honra voltar à padaria e se esbaldar naquelas inimagináveis vitrines de guloseimas.  
Chegou o momento tão esperado. “Vamos marcar nosso encontro na Dona Manuela.” Nem precisou de votação. Por unanimidade, almoçaremos na nova padaria. Quinta-feira, às 11:00h, fechado.  
No dia marcado, a chuva não veio; porém, o sol marcou presença escaldante. Sair de casa com o sol a pino é um desafio só para os fortes, mas faltar a uma reunião do quarteto literário era falta grave, eu diria, falta para cartão vermelho. Então, de sombrinha na mão, fui ao encontro do restante do grupo no local combinado. Compromisso é compromisso; a literatura precisa continuar. Já contávamos com o atraso da nossa motorista oficial, era de praxe. Nos pomos a aguardá-la. Depois de alguns minutos de espera, uma decidiu lhe enviar um áudio: “Já estamos no lugar combinado, você está vindo?” Para a surpresa de todas, a resposta foi surpreendente: “Já estou na Padaria Dona Manuela, não era às 11:00h?” Não sabíamos se ficávamos felizes por não atrasar dessa vez ou se ficaríamos p da vida por ela seguir na frente e nos deixar para enfrentar 40° na sombra para chegar até a bendita padaria andando. Chegamos, vertendo suor por todos os poros, e encontramos a peça que faltava no quarteto desfrutando o frescor de um ar-condicionado. Explicações dadas e desculpas aceitas; afinal, a literatura não aceita desavenças que não sejam nos contos e romances. Hora de se esbaldar diante das inúmeras opções. Ah, não podemos perder a razão; não temos mais idade para extravagâncias nutricionais. Chega uma certa idade em que, involuntariamente, num lugar como esse, nossos olhos vão logo de encontro aos alimentos saudáveis. A comunicação entre olhos e cérebro é indiscutível; desaparece com aquelas imagens de desenho animado, onde um diabinho de um lado diz: “doces, pizzas, croissant...!”, e o anjinho do outro lado diz: “diabetes, pressão alta, colesterol...!” Automaticamente, estávamos comendo alface, tomate, cebola, etc.  
              Entre uma garfada e outra, o assunto do surpreendente adiantamento da motorista na padaria voltou à pauta. Alguém lembrou que o trauma daquela noite em que a padaria desapareceu ela não tinha superado. Chegar sozinha seria uma forma de lavar a honra. É óbvio que ela negou, mas cá pra nós, perder uma padaria gigante localizada entre dois quarteirões é traumatizante para qualquer motorista.  
Enfim, vamos à pauta principal: expor as ideias para o novo projeto literário do quarteto. As discussões já começaram acirradas. Mais uma característica dos anos de experiências e da idade: todas querem falar ao mesmo tempo e, consequentemente, ninguém se entende. Um tal de “deixa eu falar” e “me deixa explicar” que logo notamos olhares de soslaio em nossa direção. Baixemos o tom!  
“A literatura não pode morrer, precisamos divulgar aos quatro cantos”, uma dizia.  
“Não, estou cansada, não quero nada parecido com oficina, não tenho mais paciência para ensinar nada para ninguém”, esbravejava a outra.  
“Eu quero um clube de leitura, vamos escolher um clássico e destrinchar ele”, falava a outra.  
“Vamos fazer leitura para velhinhos em casas de repouso”, sugeri. Quase fui expulsa da mesa.  
Discute daqui, discute dali, sem consenso.  
“Tudo bem, eu vou fazer sozinha; chego no local, começo a atividade, se não aparecer ninguém, azar!”  
Foi a gota d’água. A qualquer momento, o quarteto seria convidado a se retirar do recinto.  
Paramos, respiramos e nos colocamos no devido lugar.  
“Vamos decidir o local da atividade e conversar com o dono sobre a data e fechar. Começaremos com leitura dramática; poderemos até representar o drama”, falou a mais ponderada do grupo.  
“É isso! É o que estou tentando explicar o tempo todo”, gritou a outra.  
Pronto, fechou. Agora, decidir o dia para irmos conversar com o dono do local.  
“Qual o melhor dia?” Alguma perguntou.  
“Na terça eu não posso, tenho terapia”, adiantou a número 1.  
“Na quarta eu não posso, tenho consulta”, lembrou a número 2.  
“Na quinta eu não posso, tenho exame marcado há dias!” disse a número 3.
A esta altura, eu já estava passando mal de tanto rir da situação e falei em gargalhadas: “Na sexta eu não posso, vou fazer cirurgia de cataratas!”  
Foi um festival de risadas incontrolável. Saímos em direção ao banheiro antes que fôssemos expulsas por molhar o piso de porcelanato da Dona Manuela, com todos os olhos voltados para nós.  
Chegamos a um consenso: a literatura precisa de sangue novo. Continuemos escrevendo, quem sabe os jovens nos leem!
Renilda Viana
Enviado por Renilda Viana em 07/02/2025
Alterado em 07/02/2025
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