Operário
O sol desponta no horizonte.
Ele, já de pé, agradece pelo laboro, caminha.
Nos pés, suas surradas botas.
Vestes de brim, cores frias como o cimento.
Um tasco de carne na farinha
E uma garrafa d’água: alimento sagrado.
Deixa a tapera no raiar do dia.
A luta pelo pão o espera em demasia.
A chave fica atrás do batente.
Até mais tarde! Despede-se do cão.
Vou ali construir mais um palácio,
Abrigo de quem me paga o pão.
À noitinha, estarei de volta.
Te deixo nas mãos do Criador.
Os companheiros o aguardam.
A luta, desde cedo, já começou.
São muitos carrinhos a transportar,
De baixo a cima e de cima a baixo.
Não há tempo para atrasos suportar.
Precisa morar na obra, recomenda o mestre.
Na obra, não posso morar.
Tenho bicho no quintal para cuidar.
Com mãos calejadas e corpo vertendo água,
Sua labuta diária já vai começar.
Tem serviço garantido a perder de vista,
Muitas paredes para rebocar.
Um palácio não se faz num dia.
Trabalho garantido, não há do que reclamar.
Sol a pino tosta a pele já sofrida.
O serviço não pode parar.
Trabalha, trabalha, trabalha.
Mais uma construção tem que entregar.
O homem que acorda com o galo
Precisa retornar à sua tapera.
Já é noite quando chega.
O esqueleto precisa descansar.
Logo, logo, mais um palácio
Terá que ajudar a levantar.
Enquanto descansa na sua tapera,
Se põe a pensar.
Um quarto com janela desse palácio
Já me serviria para no luxo dormir.
Mais pobre não tem vez,
Mas, não fosse eu, o patrão não tinha como morar.
Cada um com suas riquezas
E é feliz como tem que ser.
O patrão dorme no palácio que fiz.
Viver trancafiado, é sina de rico
Que não conhece a liberdade da tapera,
Nem o despertar do galo num alvorecer.
Renilda Viana
Enviado por Renilda Viana em 22/02/2025